domingo, 3 de março de 2013

Capítulo Um: Quem sou eu?



“Gosto dos dois, de carne e de peixe."

A Lua ainda era visível quando desci as escadas do meu prédio. Pálida e brilhante, lutando contra o seu inimigo, o Sol, cuja luz já iluminava a rua.
Atravessei a rua e segui em frente em direção à paragem do autocarro. Viam-se poucas pessoas àquela hora da manhã. O ambiente estava calmo, mas o ar estava húmido, ainda se observava as pequenas gotas de geada nos vidros dos carros. Era, sem dúvida, uma manhã fria.
Passei em frente à minha antiga escola onde tinha passado grande parte da minha vida, onde tinha feito amigos para a vida inteira e onde tinha conhecido a pessoa que mais amava no mundo.
Quando cheguei à paragem reparei que já lá estavam outras pessoas à espera, pacientemente. Era bom sinal, significava que o autocarro estava prestes a chegar. Tirei o Ipod do bolso e meti os headphones. Selecionei a nova música do David Guetta e Sia, “Titanium”, era uma boa música para começar o dia.
Reparei nas pessoas que estavam à minha volta: havia uma velhota vestida de preto com as visíveis rugas de anciã a decorarem-lhe a face cansada. Os olhos eram de um castanho muito escuro que se confundia com o preto da pupila. O cabelo branco emoldurava-lhe o rosto. Era uma típica senhora de idade portuguesa… do século passado. Vestida de preto, atarracada, com um ar cansado. Parecia uma camponesa viúva que tinha passado a vida no campo a trabalhar a terra com as mãos.
Um pouco afastado dela estava um homem na casa dos 50 anos com as mãos nos bolsos. A face, com vestígios de rugas, era sisuda e vermelha como um tomate. Estava vestido de uma forma grosseira que combinava com ele. O homem reparou no meu olhar e imediatamente puxou da gosma e cuspiu violentamente a escarra para o chão. Virei a cara face ao nojo que aquilo me fazia. Era este o retrato de um homem, dito, macho? Porco, feio e mau? Felizmente o autocarro chegou e subi de imediato. Passei o passe e logo me fui sentar num dos lugares perto da porta.
A viagem até à escola foi calma. Depois de eu entrar, pouco a pouco, o autocarro foi enchendo. Jovens de todas as idades apanhavam o transporte para irem para a escola. Nem todos têm a sorte dos papás terem carros para levarem as crias à escola. Eu até tenho essa sorte, mas ambos os meus pais se encontram fora. O meu pai vive em Londres e trabalha como analista forense nos Serviços Secretos Britânicos e na Polícia de Londres. Raramente falo com ele, só quando vem cá a Lisboa de férias ou eu vou lá. A minha mãe é hospedeira de aviação e está constantemente no estrangeiro. Neste momento está numa ação de formação em Praga. Depois ainda havia a minha avó, mas desde a discussão que tivera há quase dois anos com a minha mãe, fizera as malas e partira para o Porto onde vivia na casa da afilhada. Portanto estava sozinho e até nem me importava, gostava de ter a minha própria independência.
Saí do autocarro e desci a rua, seguindo uns colegas de escola. Passei o cartão à entrada e entrei no pavilhão principal, fui à zona dos cacifos buscar os livros necessários para o turno da manhã.
Virei na esquina na direção da sala de convívio e lá pude avistar um grande grupo ao fundo. Era a minha turma.
- Filipe! – exclamou uma rapariga alta de cabelos aloirados.
- Bom dia Alex. Tudo bem? – disse-lhe dando-lhe um abraço e um beijo na bochecha.
- Tudo. Estava mesmo agora a falar com a Raquel sobre ti.
- Bem me parecia que tinha as orelhas a arder… - sorri.
- Tens sempre as orelhas a arder, Lipe. – uma rapariga de tom de pele rosado e cabelos negros em cachos, tinha-se aproximado, dando-me um beijo na face.
- Bom dia Raquel. Mas afinal o que é que estavam a falar sobre mim, isto é, se eu puder saber.
- Eu e a Raquel estávamos a pensar em convidar-te para irmos dar uma volta…
- Hoje, depois das aulas.
- Parece-me bem, eu alinho. Bem agora deixem-me só cumprimentar o resto desta gente.
Dirigi-me ao resto do grupo e logo uma rapariga magra, de óculos coloridos abraçou-me.
- Bom dia Lipe!
- Bom dia Cláudia. – Cláudia era uma amiga que tinha conhecido há um ano, era pequenina e por vezes, extrovertida.
Pessoa a pessoa, fui cumprimentando cada um até chegar ao grupo dos rapazes.
- Olhem só… O panisgas chegou!
- Bom dia para ti também Lucas – apertei-lhe a mão, sorrindo.
Lucas era meu amigo há quase um ano também, conhecemo-nos no 10º ano e sempre gostei do ar descontraído dele e não só…
Senti uma palmada na nuca e quando me virei vi o Luís, o palhaço da turma, com a mão a agarrar a cintura de outra amiga minha, a Filipa. Eles amavam-se mas só que não queriam admitir, então mantinham aquela estranha relação que não conseguia classificar.
- Bom dia Lulu. – usei a alcunha que lhe deram para me vingar e logo me virei para Filipa dando-lhe um beijo nas faces rosadas – Bom dia Filipa.
Senti o olhar de Luís sobre mim e logo me afastei, indo em direção de outras duas amigas, Vânia e Bianca. Vânia era pequena e querida. Bianca era simpática mas mantinha uma postura forte e imponente, mas por vezes lá se desleixava. Dei um beijo às duas e logo Bianca me segurou os ombros e apontou para a porta, sussurrando-me ao ouvido:
- Aí vem o teu amor!
E lá estava ele. Com o seu estilo irreverente, umas calças brancas, uma sweatshirt rosa e com os fones nos ouvidos ainda a pentear-se vendo o seu reflexo no ecrã do telemóvel.
Ah, sim, ele é um rapaz. Sou bissexual. Gosto dos dois, de carne e de peixe. De rapazes e raparigas. Tinha descoberto acerca de cinco anos que não me contentava apenas com mamas. O coming out tinha apenas ocorrido há um ano quando decidi contar às minhas melhores amigas, a Alexandra e a Raquel. Felizmente apoiaram-me e hoje estou orgulhoso e feliz.
- Boas puto. – disse-me o rapaz que eu amava, apertando-me a mão.
- Bom dia Rafael. – respondi eu tentando respirar, já encantado pelo seu perfume.
A paixoneta pelo Rafael tinha começado há dois anos quando ele entrou na minha turma e tornou-se o meu melhor amigo. As suas atitudes estranhas confundiam o meu gaydar.
A campainha soou. Despedi-me da Alex, da Vânia e da Bianca pois éramos de turmas diferentes. Elas são de Humanidades e eu, nem sei porquê, sou de Ciências. Combinámos um lugar para nos encontrarmos no intervalo seguinte e depois seguimos caminhos diferentes.
A primeira aula do dia era Filosofia, com a nossa Directora de Turma. Até que era simpática e divertida quando não estava de mau humor. Eu gostava dela.
- Bom dia a todos. Antes de começarmos com o nosso querido René, tenho uma informação a dar-vos.
Ouviu-se um burburinho entre a turma.
- Daqui a um mês, segundo o previsto, chegarão os alunos ingleses do projecto Comenius e precisarão de alojamento.
- Vêm rapazes ou raparigas, stôra? – interpelou Rafael com um ar curioso.
- Não sabemos. Mas isso é irrelevante Rafael.
- Não é nada. Para que é que a stôra acha que eu quero um gajo em casa? Eu cá não sou desses maricas.
As palavras dele magoavam-me, mesmo sabendo que não era por mal, mas porra, ele sabia de mim, podia-se conter um pouco. Tinha-lhe contado que era bissexual no Verão passado. Ele aceitou muito bem, que desde que eu seja feliz estava tudo bem para ele, segundo as suas palavras. Não se importava com isso, segundo ele, as pessoas tinham direito a amar quem quisessem, tinham direito a serem felizes.
- Ai, ai essas hormonas, menino Rafael, controle-se! Mas bem… Quem é que se oferece a dar tecto aos recém-chegados? Eles apenas precisam de lugar para dormir, mais nada.
- Eu, stôra. – estendi o braço.
- Como eu imaginara. Muito bem Filipe, depois falamos sobre os pormenores quando chegar a altura, ok?
Assenti com a cabeça.
- Mais ninguém? – a turma permaneceu calada. – Ok. Vamos passar ao nosso amigo Descartes, peguem no Discurso, por favor!
- Stôra, eu esqueci-me do meu em casa, posso-me juntar com o Filipe e com a Raquel?
- Só não te esqueces da cabeça porque está junta com o corpo… Vai lá para o pé deles, mas não os distraias!
Rafael puxou a cadeira e encostou-a à minha, sentando-se depois, colado a mim.
- Vamos onde? – perguntou ele fixando os seus olhos cor de chocolate nos meus.
Pisquei os olhos muito rápido e apontei para o parágrafo que acabara de ler. – Aqui.
Voltei a olhar o texto e continuei a ler. Ele passou o braço por detrás das minhas costas e chegou-se ainda mais perto, ficando a centímetros de mim. Bolas lá se foi a concentração, pensei. É então que ele aproxima a sua boca do meu ouvido e pousa a mão na minha perna, sussurrando:
- Sabias que te amo? – ao ouvir isto, o meu corpo ficou completamente hirto e olhei para ele, levantando a sobrancelha.
- Ya, Rafael, vai gozar com outro. – voltei a olhar o texto.
- É verdade… - disse ele, passando o dedo pelo meu pescoço.
- Rafael, fazes o favor de parar de fazer festinhas ao Filipe?! – a voz da stôra irrompeu o silêncio da turma que começara a rir. A mim só me apetecia ter ali um buraco para me esconder.
- Oh stôra, eu não estava a fazer nada. Já lhe disse que não sou desses amaricados. Eu cá gosto é de… - tossiu levemente – … bem, a stôra sabe. – disse ele, afastando-se um pouco de mim.
- Sei, sei. O que eu sei é que devias ganhar juízo. Levar umas boas palmadas para entrar na linha.
Rafael arregalou os olhos de espanto e a Raquel começou a tossir, tentando abafar o riso. Lancei-lhe um olhar reprovador, sorrindo logo depois.


12 comentários:

  1. Lobo, está... óptimo! Deixa-me que te diga que está muito bem escrito, pontuado, e as ideias bem arrumadas. Há um défice em muitos contos que já li em blogues, onde as ideias ficam confusas e mal estruturadas. :s
    A frase inicial, e que dá o mote ao capítulo, não poderia ser melhor. O enredo é interessante. Lembrei-me de algo que também comecei a escrever no final do liceu e que não terminei. Abordava temas semelhantes: o amor gay, a recusa na aceitação por parte de uma personagem, as peripécias de uma relação complicada em idades difíceis...

    Continua, a sério! (:

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    1. Oh Mark, não sabes o que o teu comentário significa pra mim. É muito bom receber o feedback de todos os leitores, dá-me força para continuar.

      Se eu fosse a ti, quando tivesse tempo livre escrevia essa história. No meu caso não a consegui tirar da cabeça enquanto não a escrevi.

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  2. Gostei bastante. As personagens começam a desenhar-se,o enredo promete e a cena final está no mínimo, empolgante. Agora não me deixes aqui sentado à espera do próximo capítulo. Quero mais!
    Abraço.

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  3. Muito bom. Gostei imenso. Aliás, conseguiste prender-me, se houvesse mais para ler, mais lia! Continua.

    Abraço

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  4. Epá, vou ser-te sincero. Se é para escreveres numa escrita "Margarida Rebelo Pinto", "Nicholas Sparks" e a autora do Crepúsculo, não continues... Isso é tudo menos literatura, serve apenas para encher as cabeças dos "leitores" de palhaçadas. Espero que isto seja uma crítica construtiva, para que desenvolvas um texto mais literário e não tão fantasiado e, desculpa, ridículo. Força para continuares...

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    1. Obrigado pela crítica, Anónimo, mas o que escrevo é apenas para os meus leitores lerem, nada mais. E acredita se a maioria dos comentários fosse negativa, eu já tinha parado e publicar os capítulos.
      Só no último capítulo é que vais perceber que tipo de livro é este, até lá vão te passar as maiores barbaridades pela cabeça.

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    2. É engraçado vir deixar uma "crítica" mas nem sequer acompanhar a mesma com um nikname. Oh well, that's life.

      Quebrando o "ataque" ao anónimo e focando a minha atenção em ti Lobo Solitário e no que me proporcionaste, deixa-me dizer apenas 3 palavras. Estás de parabéns.
      Para mim não importa se estás a escrever fantasia, ficção científica, romance ou sobre a realidade, porque aquilo que procuro em qualquer livro é que me prenda e isso aconteceu nestes dois capítulos que já publicaste, portanto vou repetir: ESTÁS DE PARABÉNS!
      Continua assim, cresce como escritor e dentro de algum tempo poderei ir a uma sessão de autógrafos tua ;) ah e continua da mesma forma a responder a críticas de anónimos, porque de facto tens jogo de cintura e amigos/leitores para isso e muito mais.
      Um grande abraço!

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